A investigação da Polícia Federal sobre supostas irregularidades financeiras no Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) ganhou novos detalhes neste sábado (31). Documentos relacionados à Operação Tomada de Contas apontam movimentações bancárias consideradas suspeitas de R$ 75,85 milhões em apenas 294 dias, além de uma sequência de saques milionários, pagamentos classificados de maneira atípica e operações financeiras registradas por câmeras de segurança instaladas nas dependências da própria instituição.
O aprofundamento das informações ocorre dois dias após a prisão preventiva do presidente afastado do Tribunal, conselheiro Sérgio Ricardo de Almeida, determinada pelo ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Segundo os elementos divulgados da investigação, a Polícia Federal identificou 150 saques em espécie, que totalizam aproximadamente R$ 15,6 milhões, entre 1º de janeiro e 22 de outubro de 2025. Desse conjunto, 64 retiradas ocorreram diretamente nos guichês bancários, movimentando cerca de R$ 15,47 milhões. Outras 86 foram realizadas em terminais de autoatendimento.
As operações são consideradas relevantes porque os investigadores procuram estabelecer a origem dos recursos, a justificativa dos pagamentos e a destinação final do dinheiro retirado das contas.
Os R$ 75,85 milhões representam movimentações bancárias classificadas como suspeitas, e não um valor de desvio já comprovado. Da mesma forma, os R$ 15,6 milhões em saques integram as operações analisadas e não devem ser automaticamente somados à movimentação total.
Pagamentos milionários e divergências nos registros
Outro ponto que chama a atenção dos investigadores envolve a comparação entre os valores creditados ao conselheiro e os registros de remuneração divulgados oficialmente.
Conforme os relatórios citados nas investigações, foram identificados 101 lançamentos bancários destinados a Sérgio Ricardo, que alcançaram aproximadamente R$ 15,44 milhões em menos de dez meses de 2025.
Desse montante, R$ 10,78 milhões teriam sido transferidos por ordens bancárias avulsas, R$ 4,35 milhões registrados sob classificações relacionadas a pagamentos a fornecedores e aproximadamente R$ 305 mil identificados como salário.
A investigação também aponta que cerca de R$ 288,5 mil apareciam nas informações oficiais publicadas sobre os pagamentos ao conselheiro, enquanto o volume global de créditos identificados nas contas analisadas era substancialmente superior.
A diferença levou a Polícia Federal a examinar a natureza das transferências e a possibilidade de utilização de mecanismos administrativos para movimentar recursos fora dos registros habituais de remuneração.
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Câmeras registraram movimentações de dinheiro
Um dos elementos considerados importantes para a investigação é o conjunto de imagens captadas por câmeras de segurança da agência do Sicoob instalada dentro do TCE-MT.
Segundo informações divulgadas sobre o material analisado pela Polícia Federal, gravações permitiram relacionar dez operações bancárias a retiradas que somaram aproximadamente R$ 3,52 milhões.
Em um dos episódios, ocorrido em 30 de setembro de 2025, o presidente afastado aparece acompanhando uma operação de retirada de R$ 500 mil. A investigação também aponta a participação de servidores ligados ao gabinete da Presidência na realização de procedimentos bancários e no transporte de valores.
O material foi confrontado com extratos e registros de operações para reconstruir a sequência das movimentações.
A presença de servidores nas operações integra a análise policial, mas não permite, isoladamente, concluir que todos os procedimentos registrados constituíram crimes. A investigação busca identificar a autorização, a finalidade e os destinatários dos recursos.
Outro levantamento divulgado neste sábado aponta R$ 16,915 milhões em provisionamentos bancários para saques e R$ 15,553 milhões em retiradas comunicadas, uma diferença de aproximadamente R$ 1,36 milhão.
É importante esclarecer que valores provisionados representam solicitações de disponibilidade de dinheiro e não necessariamente saques efetivados. Portanto, a diferença não comprova desaparecimento de recursos.
Contratos públicos também estão sob investigação
A Operação Tomada de Contas não se limita à movimentação bancária do presidente afastado.
A Polícia Federal investiga possíveis irregularidades na execução de contratos administrativos, incluindo a suspeita de que suspensões de pagamentos tenham sido utilizadas para pressionar fornecedores e estabelecer tratamento diferenciado na liberação de recursos.
A hipótese investigativa é que determinados mecanismos administrativos poderiam favorecer empresas e facilitar movimentações financeiras incompatíveis com a finalidade dos pagamentos oficiais.
Deflagrada na quinta-feira (29), a operação mobilizou mais de 180 policiais federais para cumprir seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo.
As medidas, autorizadas pelo STJ, também incluíram acesso a informações protegidas por sigilo e sequestro judicial de bens.
Os fatos são investigados sob a perspectiva de possíveis crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ainda não há condenação definitiva dos envolvidos.
TCE-MT enfrenta reorganização administrativa
O impacto da operação também chegou à estrutura administrativa do Tribunal de Contas.
Com a prisão e o afastamento de integrantes da Corte, o vice-presidente Waldir Júlio Teis passou a exercer as responsabilidades de comando da instituição.
O Tribunal suspendeu o expediente e os prazos processuais de quinta-feira (29), além de cancelar a sessão plenária inicialmente marcada para terça-feira, 3 de novembro.
Em manifestação institucional, a Corte afirmou que cumprirá as determinações judiciais e adotará providências para preservar a continuidade administrativa e o exercício de suas atribuições constitucionais.
A defesa de Sérgio Ricardo havia informado, após a prisão, que aguardava acesso aos fundamentos da investigação. Em reportagem publicada neste sábado, a Agência Estado registrou que não havia recebido nova manifestação da defesa até a publicação.
Todos os investigados têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.
Investigação ainda precisa esclarecer destino dos recursos
A principal questão ainda em aberto é identificar para onde foram destinados os valores movimentados e qual a relação entre os pagamentos efetuados pelo Tribunal, os créditos bancários e as retiradas em espécie.
A análise financeira poderá ser confrontada com contratos, documentos administrativos, registros bancários e depoimentos. Também será necessário individualizar a eventual participação de cada investigado.
Os novos detalhes ampliam os questionamentos sobre os mecanismos de controle interno e a transparência das despesas de uma instituição cuja missão constitucional é justamente fiscalizar a aplicação dos recursos públicos.
O MT É NOTÍCIA continuará acompanhando os desdobramentos da Operação Tomada de Contas, as decisões do Superior Tribunal de Justiça, as manifestações das defesas e as consequências administrativas para o Tribunal de Contas de Mato Grosso.
Os valores investigados e os novos detalhes sobre as operações financeiras do TCE-MT envolvem questões de interesse de toda a população mato-grossense. Compartilhe esta reportagem e acompanhe os próximos desdobramentos da investigação.
Fonte:
https://mtenoticia.com.br/pf-rastreia-r-7585-milhoes-em-movimentacoes-suspeitas-no-tce-mt/

