Especialista da explica por que cerveja preta não aumenta o leite e esclarece dúvidas sobre feijão, café e chocolate

Cerveja preta para aumentar a produção de leite, retirada do feijão para evitar cólicas no bebê e proibição de café, chocolate e alimentos condimentados estão entre as recomendações populares que ainda cercam a amamentação. Segundo o nutricionista e docente da Afya Cruzeiro do Sul, Micael Dias, muitas dessas orientações não possuem comprovação científica e podem provocar restrições desnecessárias.
Um dos mitos mais conhecidos é o de que a cerveja preta estimularia a produção de leite materno. Micael explica que não existem evidências que sustentem essa afirmação e alerta que o álcool passa para o leite e pode interferir no reflexo responsável por sua liberação.
“O principal estímulo para a produção é a retirada frequente e eficiente do leite. Isso acontece por meio da sucção do bebê, da pega adequada — o encaixe correto da boca no seio —, da amamentação em livre demanda e, quando necessário, da ordenha”, afirma.
Descanso, hidratação, alimentação equilibrada e apoio emocional ajudam no bem-estar materno, mas nenhuma bebida ou alimento isolado funciona como solução para aumentar a produção.
Feijão e gases no bebê
Outra crença frequente é a de que feijão, brócolis, repolho e couve-flor provocariam gases e cólicas no bebê. O nutricionista esclarece que esses alimentos podem produzir gases no intestino da mãe, mas eles não passam para o leite materno.
Por isso, não há indicação para retirá-los automaticamente da dieta. O feijão, inclusive, é fonte de proteínas vegetais, fibras, ferro e outros nutrientes importantes.
Caso a mãe perceba uma reação recorrente após consumir determinado alimento, a orientação é procurar um pediatra ou nutricionista antes de realizar qualquer exclusão.
“As cólicas também podem estar relacionadas à imaturidade do sistema gastrointestinal do bebê, à deglutição de ar durante a mamada ou a dificuldades na pega, e não necessariamente à alimentação materna”, explica Micael.
Café e chocolate
Café e chocolate também não precisam ser totalmente eliminados. Ambos contêm cafeína, que passa para o leite em pequenas quantidades. O consumo moderado geralmente não causa problemas, mas o excesso pode provocar irritabilidade, agitação e dificuldades para dormir, principalmente em recém-nascidos e prematuros.
A recomendação é limitar o consumo diário de cafeína a aproximadamente 200 a 300 miligramas, considerando também chás, refrigerantes de cola, energéticos, medicamentos e chocolate.
Bebidas energéticas devem ser evitadas por concentrarem estimulantes e, muitas vezes, grandes quantidades de açúcar. Alimentos condimentados também podem ser mantidos, salvo quando provocam desconforto na mãe ou uma reação recorrente no bebê.
Não existe alimento milagroso
Canjica, mingau, caldos, sucos e chás podem fazer parte da alimentação, mas não devem ser apresentados como responsáveis pelo aumento da produção de leite.
Segundo Micael Dias, a mulher deve priorizar uma dieta variada, com frutas, verduras, legumes, feijão, cereais, tubérculos, ovos, carnes, peixes e boas fontes de gordura.
Quando existe suspeita de baixa produção, devem ser avaliados a pega, a frequência das mamadas, o esvaziamento das mamas e o ganho de peso do bebê, em vez de recorrer a receitas caseiras ou suplementos sem indicação.
Cuidados
O álcool deve ser evitado porque passa para o leite e pode interferir na mamada e no comportamento do bebê. A recomendação também vale para a cerveja preta.
Alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas e energéticos devem ser limitados por sua baixa qualidade nutricional. Já os peixes são importantes fontes de proteínas e gorduras benéficas, mas o especialista recomenda variar as espécies e evitar o consumo frequente de grandes predadores, que podem acumular mais mercúrio.
Dietas que retiram leite, ovos, soja, trigo ou outros grupos alimentares somente devem ser adotadas diante de suspeita consistente ou diagnóstico de alergia no bebê, sempre com acompanhamento profissional.
A mãe também não precisa “comer por dois” nem seguir uma dieta especial. O mais importante é manter refeições completas e regulares, priorizando alimentos naturais ou minimamente processados.
A hidratação deve acompanhar a sede. Beber água em excesso não aumenta automaticamente a produção de leite.
Para Micael Dias, um dos maiores mitos é acreditar que a mulher precisa viver cercada de proibições durante a amamentação.
“Na maioria das situações, a mãe pode manter uma alimentação variada e equilibrada. Não existe alimento milagroso para produzir leite e também não existe uma lista universal de alimentos proibidos”, conclui.
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