Enquanto isso na sala de TV, por Ivanor Luiz Guarnieri
Desconhecer é um problema. Saber o que pouco importa também. Descobrir algo que irá nos perturbar por bom tempo pode ser tão ruim quanto perceber-se ignorante.
Em termos comparativos os telejornais da época da ditadura militar pareciam muito mais informativos do que hoje. Como o governo daquela época queria ver sua voz e suas ideias colocadas no principal noticiário do País, seguidamente ministros eram entrevistados. Havia também e de modo seguido o pronunciamento de alguma autoridade em red
e nacional. O fato de querer impor seus pontos de vista levava o governo a aparecer na mídia e expor-se. Isso tinha o efeito salutar de colocar em discussão problemas nacionais, como a inflação, os trabalhos de combate ao crime e outras coisas. As pessoas sabiam que estavam vivendo num regime ditatorial e esperavam pela abertura política. Com a democracia o povo finalmente ficaria informado. Povo esclarecido País melhor.
Talvez tenha razão um conhecido meu que afirmou que com a democracia a censura foi privatizada. Depois de 27 anos do final do regime militar o que encontramos é uma televisão absolutamente água com açúcar. Há inúmeras questões pertinentes que o telejornal poderia apresentar: como está o Japão um ano depois do tsunami; a situação dos hutus, tutsis e zulus na África; os empréstimos que o Brasil fez ao FMI para socorrer as economias europeias. Bem, há uma greve em andamento no Brasil, as Universidades Federais estão em greve, pois faltam professores e recursos. Milhões de alunos estão sem aula. Tramita na Câmara dos Deputados Projeto de Lei que prevê internação em hospitais para dependentes de drogas. Os recursos para a Copa do Mundo já estão em mais de 31 bilhões, o governo prevê que possa chegar aos 75 bilhões e o deputado federal, Romário, afirmou recentemente que não fica em menos de 150 bilhões de reais. É possível que você mesmo, distinto leitor, saiba de outras coisas importantes que gostaria de ver noticiada em nossos telejornais.
Enquanto isso na sala de TV era possível ver na telinha jornalistas mostrando geada no sul. Minutos preciosos mostrando mãos e unhas raspando gelo que cobria capôs de carros. Depois, no Sudeste, uma fantástica festa quase junina, na qual era servido ‘quentão’ para ‘espantar o frio’ segundo nos informou a repórter muito entendida dessas coisas. Bem, felizmente, e considerando que o frio nessa época do ano parece ser coisa de outro mundo, algumas pessoas foram entrevistadas para dar sua opinião, importante e equilibrada, respondendo a pergunta terrível: ‘o que você está achando do frio?’ Horário nobre é para isso, mostrar durante longos minutos coisas sem a menor importância.
Agora com a redução dos impostos sobre os automóveis a enxurrada de notícias colhidas em agências e concessionárias de veículos, mostrando possíveis compradores, dispostos a colocar a corda no pescoço do orçamento doméstico para ter um carro novo. O que a TV mostra é sempre mais do mesmo. Raros programas discutem acertos e desacertos do governo, que, vendo a economia perder força, aposta mais uma vez na venda dos autos, enquanto as megacidades brasileiras vêm crescer os congestionamentos e o transporte coletivo é uma aventura de espreme-espreme e cotoveladas. É claro que as redes de televisão não vão criticar ações do governo que beneficiam as montadoras. Há milhões em propaganda sendo disputados pelas empresas televisivas. Cada novo modelo, cada aumento nas vendas, mais e mais propaganda.
As emissoras lucram, as montadoras ganham, e o consumidor se atola mais um pouco em dívidas. Já passou dos 5% de inadimplentes, isto é, pessoas que estão mais de 90 dias atrasadas no pagamento das parcelas financiadas dos automóveis.
A pauta dos telejornais é feita com que critérios? Pelas imagens cor-de-rosa das notícias dá para ver a luta encarniçada por audiência, critério maior para conseguir patrocinadores, dinheiro e público. Mais do que importantes, as notícias devem ser interessantes. Pena que estejam cada vez mais insossas.
Na época da ditadura as notícias eram censuradas. Teria o noticiário melhorado na democracia? Nem tanto, limitando-se a desfilar quireras de conteúdo misturado com quilos de reportagens de baixa pertinência, tanto para nossa vida, quanto para com os destinos de nosso País. Assistindo TV sabe-se muito do que pouco importa. Talvez isso seja o mais perturbador.

















